Setor de Ciências Biológicas

Pesquisas mostram a relação entre as formigas e a conservação dos campos naturais do Paraná 

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) obtêm resultados que ampliam o conhecimento sobre a fauna de formigas nos campos do Paraná.

O projeto “As Formigas dos Campos Gerais Paranaenses – uma Abordagem Ecológica e Taxonômica”, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), contemplou a diversidade, a composição, a distribuição e a vulnerabilidade da fauna de formigas em quatro unidades de conservação do Paraná: os parques estaduais de Vila Velha, do  Guartelá  e do Cerrado; além do Refúgio da Vida Silvestre dos Campos de Palmas.

Desde 2014, novas espécies foram descobertas e outras dezenas foram identificadas pela primeira vez no Paraná. Até então, nenhum trabalho havia sido feito com formigas nessas áreas.

Com os resultados, foi possível compreender a importância da conservação em diferentes regiões do estado. “Descobrimos que, apesar da ausência de florestas, os campos paranaenses abrigam uma fauna diversa de formigas, que inclui espécies raramente coletadas e algumas não encontradas em nenhum outro ecossistema do país”, resume o professor Rodrigo Feitosa, do Departamento de Zoologia da UFPR, que coordenou os estudos, conduzidos por pós-graduandos em Entomologia da UFPR e por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia.

O Parque Estadual de Vila Velha foi uma das quatro áreas estudadas no projeto. Fotos: Laboratório de Sistemática e Biologia de Formigas da UFPR

 

Campos

A ideia de investigar as formigas dos campos naturais começou quando o professor Rodrigo se deparou com a pouca representatividade desse grupo na Coleção Entomológica Padre Jesus Santiago Moure. Além de proporcionar material para pesquisas de taxonomia, o projeto possibilitou responder questões ecológicas e evolutivas das formigas em nosso estado.

O primeiro desafio foi compreender a região, uma transição entre os campos do Brasil Central e do Sul, com características dos biomas Cerrado e Mata Atlântica e com potencial de ser investigado. “Essa região concentra espécies que só existem ali, devido à diferença de latitude e climática. Então, podemos dizer que são as espécies dos campos paranaenses”, explica  Weslly Franco, doutorando em Entomologia da UFPR.

Os resultados dos levantamentos foram publicados recentemente na revista Neotropical Entomology. Os achados surpreenderam a equipe: foram identificadas  245 espécies de formigas, sendo dez delas registradas pela primeira vez no estado do Paraná e três na Região Sul do Brasil. O número é superior ao de outras pesquisas realizadas em áreas de campos naturais nos estados do Sul, com metodologias semelhantes (72 espécies no Rio Grande do Sul e 34 em Santa Catarina).

Exemplares da espécie Atta sexdens, identificadas em Vila Velha

De acordo com o estudo, nos Campos de Palmas, mais próximos do Pampa, a quantidade de espécies encontradas (55) foi menor, pois lá, além das temperaturas menores, há ausência recursos para alimentação e formação de ninhos, fatores importantes para a ocorrência de formigas. Já no Cerrado, os 129 registros mudam o cenário da distribuição das formigas na região Sul, com novas espécies antes encontradas somente em outras regiões brasileiras.

No Guartelá, por exemplo, há espécies encontradas em áreas abertas de pastagem e outras nativas de áreas de Cerrado. Por isso, a composição dos campos naturais do Paraná combina elementos de diferentes domínios e formam não apenas uma área de transição, mas um ecossistema singular e isolado.

Cerrado

Um exemplo da diversidade ocorre no Parque Estadual do Cerrado (PEC), única unidade de conservação de savana no sul do Brasil, localizada na porção Nordeste do Paraná. Essa área concentra o maior número de espécies dos quatro ambientes estudados.

A mestra em Entomologia Aline Machado de Oliveira identificou espécies raras de formigas na região, como a Cyatta abscondita, uma espécie cultivadora de fungos vista pela primeira vez no Sul do Brasil.

Mais recentemente, no artigo “Salve os sobreviventes: a notável diversidade de formigas dos últimos fragmentos protegidos de savana no sul do Brasil”, a pesquisadora registrou 136 espécies em 36 gêneros e oito subfamílias de formigas. Os estudos revelaram que 13 espécies foram registradas pela primeira vez no Paraná e três no Sul do Brasil: Camponotus crispulus; Pheidole exigua e Pheidole scapulata.

A pesquisa também revelou um dado que surpreendeu a equipe. Geralmente, a diversidade é maior em regiões mais próximas da linha do Equador e mais pobre com o aumento da latitude. Porém, o trabalho de Aline mostrou o contrário: o Cerrado paranaense é uma das regiões mais ricas em espécies de todo o bioma.

 

Infográfico - Formigas e Conservação_01 (3)

Principais resultados do projeto. Arte: Juliana Barbosa

 

Por que é importante preservar?

Algumas espécies encontradas são específicas dos biomas estudados e não ocorrem em outras áreas do Paraná e do Brasil.

De acordo com Aline, as áreas estudadas estão seriamente ameaçadas por monoculturas, cultivo de plantas exóticas e gado. Outro fator que a pesquisadora destaca é a exploração turística de unidades de conservação por empresas privadas. “O ecoturismo pode ser bastante perigoso para a preservação. Sem fiscalização, a movimentação de pessoas pode trazer erosão ao solo, perda de espécies nativas e reduzir a fauna e flora local”.

Equipe da UFPR durante coleta no Parque Estadual do Guartelá

Nesse contexto, Weslly destaca a dificuldade em se obter um maior número de amostras em áreas preservadas, pois as áreas estudadas precisam ser amplas, o que quase não ocorre no Paraná. Além disso, boa parte dessas áreas sofre constantes ameaças pela urbanização e por projetos governamentais e privados que podem reduzir ainda mais o tamanho das unidades.

Por isso, Rodrigo Feitosa defende que a composição das formigas nesses ambientes reflete a importância da conservação.  “Nesse sentido, podemos dizer que não só a fauna de formigas indica o grau de conservação e diversidade. Isso serve também para outros grupos de animais. O que a gente chama de campos gerais é um belo mosaico, de fisionomias e biomas, que juntos não são encontrados em nenhum outro lugar. Isso aumenta ainda mais a nossa necessidade de proteger”, completa.

Por Louiselene Meneses, com orientação de João Cubas (Aspec/SCB/UFPR)

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